terça-feira, 18 de outubro de 2016

ENTREVISTA: Beto, o paraense artilheiro na Indonésia!!!


                                                Beto sendo apresentado no Sriwijaya FC.
                                                    (Foto: Bola.com/Riskha Prasetya)

O futebol sempre nos separa algumas surpresas e uma delas, com certeza, foi conseguir fazer uma entrevista com o atacante Alberto Gonçalves da Costa, 35, mais conhecido como "Beto Gonçalves" na Ásia e "Beto Belém" no Pará. O atacante revelado no Sport Belém, atualmente atua no Sriwijaya FC da Indonésia e entre um "bom dia" meu e uma "boa noite" dele conseguimos realizar essa entrevista. Beto é mais um caso de jogador paraense que luta todos os dias da carreira para continuar traçando seu caminho no futebol, alguns não conseguem ter um longo caminho, mas Beto conseguiu. Não apenas por atuar na distante Ásia, mas por se destacar (e muito) no futebol local onde é reconhecido na rua e quase se naturalizou indonésio para defender a seleção local. Beto nos contou um pouco de seu passado no futebol paraense (o atacante também defendeu a Tuna Luso e o Clube do Remo), de como é atuar e viver na Indonésia (com direito a relatar a experiência de comer carne de cachorro e morcego) e se voltaria ao futebol paraense. Agora com vocês a entrevista com esse grande jogador paraense Beto Gonçalves!!!


1 - FUTEBOL PARAENSE: Você já está há 10 anos no futebol da Indonésia. Como você avalia o futebol local?

BETO GONÇALVES: O futebol local, ao contrário de que muitos pensam em Belém, é forte. Já vi vários jogadores renomados virem para cá e não ficarem, pois não se adaptaram ao clima ou a alimentação. Em termos de futebol a Indonésia possui um futebol forte e competitivo. Quando cheguei poderiam jogar até cinco estrangeiros por time e geralmente contratavam zagueiros africanos que tem como característica ser agressivos, eu mesmo já tomei muita porrada. Os próprios jogadores locais são muito fortes fisicamente e nunca desistem de um lance. Todas essas características compensam um pouco da falta de organização que o campeonato nacional ainda possui. Também é importante citar a torcida, todo jogo do campeonato o estádio está cheio, é impressionante.

2 - F.P.: Poderia nos contar um pouco da sua vida nesse lugar que possui uma cultura tão diferente da nossa!?

B.G.: Quando cheguei aqui estava sozinho e senti muita dificuldade em relação a alimentação, pois tem muita comida doce e apimentada. Também cheguei a experimentar algumas comidas exóticas. Em 2008 quando atuava no Persipura, fui no aniversário do nosso goleiro e lá fizeram um refogado, apimentado, de carne de cachorro com batata. O pessoal começou a rir quando eu estava comendo e depois que fui saber que era carne de cachorro. Também cheguei a comer morcego, fiquei um pouco com nojo mas decidi experimentar a culinária local. A respeito do idioma é o bahasa, quando cheguei alguns empresários me deram uma cartilha com as principais palavras, mas com sete meses já compreendia bem o idioma e sabia me comunicar.

3 - F.P.: O que te vez ficar tanto tempo no exterior? Nunca teve vontade de voltar a atuar no futebol paraense?

 B.G.: Um dos maiores motivos para que eu fique no exterior é por causa que aqui recebo em dia e assim pude construi a minha vida e tudo que tenho em Belém. Ao contrário do tempo em que atuava no Remo e na Tuna Luso que além de não receber muito não recebia em dia. Mesmo assim já tentei a voltar para o futebol paraense, levei o meu dvd ao Remo e ao Paysandu mas eles ignoraram, infelizmente o jogador paraense não tem vez nos grandes times do Pará. Mas atualmente considero difícil sair da Indonésia, aqui já tenho residência fixa, sou casado com uma indonêsa desde 2009 e tenho duas filhas nascidas aqui. Além dessa questão familiar eu tenho um nome aqui no futebol e todos me conhecem.

4 - F.P.: Você já foi artilheiro máximo da SLI(Super Liga da Indonésia) e esse feito aumentou a especulação que você poderia se naturalizar para defender a seleção da Indonésia. Como você se sentiu com essa valorização e como terminou essa história?

B.G.: Em 2012 fui artilheiro da SLI (Super Liga da Indonésia) com 25 gols e em 2010 também estava sendo o artilheiro da competição com 18 gols (6 gols a mais que o vice-artilheiro), porém estava com uma forte dor no tendão e estava jogando a base de infiltrações. Fiz esse sacrifício pois não queria perder a posição de artilheiro do campeonato nacional, porém em um jogo importante contra o Arema subi sozinho em um escanteio e o tendão "estourou". Com essa lesão realizei a operação e a recuperação em Belém. No dia da minha cirurgia aconteceu a ultima rodada da Liga e um atacante paraguaio marcou quatro gols e me ultrapassou na artilharia. Esse ano infelizmente não fui artilheiro, mas fui muito valorizado e se não fosse essa minha lesão eu seria inclusive naturalizado para defender a seleção da Indonésia.


                                             Beto comemorando um de seus gols na Indonésia
                                                             (Foto: Arquivo pessoal)

5 - F.P.: Se pudesse voltar ao ano de 2006, você faria tudo novamente ou tentaria traçar outro rumo à sua carreira?

B.G.: Na Indonésia conquistei tudo que tenho em Belém e construí uma família que não troco por nada. Mesmo aqui não ganhando milhões ou o mesmo tanto que ganharia na Coréia do Sul (Beto teve uma proposta contratual de atuar por dois anos na Coréia) em que o cenário é muito maior, tudo que conquistei foi com o meu esforço e dedicação. Portanto, não me arrependo de ter vindo para a Indonésia e se voltássemos para o ano de 2006 faria tudo novamente.

6 - F.P.: A torcida da Tuna Luso lembra muito de você. Como foi vestir a camisa Cruzmaltina?

B.G.: Tenho muita satisfação de ter jogado na Tuna Luso Brasileira é um clube em que deixei muitos amigos. A Tuna me deu a oportunidade de jogar uma Copa do Brasil contra o Palmeiras, além de ter podido atuar em vários clássicos contra o Remo e Paysandu. Mas antes de conseguir atuar na Tuna já havia feito vários testes no clube mas em nenhum havia sido selecionado. Sendo assim, fui para o Sport Belém e depois para o Vila Rica. No Vila Rica eu fiz três gols na Tuna Luso em um jogo e isso despertou o interesse do clube em mim. Na época perguntei para o treinador Samuel Cândido a razão de nunca ter tido uma chance na Tuna e ele me respondeu que já tinha o time formado e nem sequer sabia que eu estava fazendo teste no clube, infelizmente essas coisas acontecem no futebol. Mas vestir a camisa da Tuna foi muito importante, pois estava jogando em um clube bi-campeão brasileiro e com vários jogadores renomados como o Rogerinho, Luiz Carlos Trindade, Cláudio Gavião, Zé Raimundo e outros. Tenho uma gratidão grande com a torcida Tunante também, pois até hoje eles entram em contato comigo e falam do tempo que defendi o clube. Sempre me apoiaram quando jogava no Souza.

7 - F.P.: Você conquistou o maior título da história do Clube do Remo que foi a Série C 2005. Qual foi a importância que essa conquista teve para a sua carreira?

B.G: Não tenho nem o que dizer sobre o Clube do Remo, eu estava presente no maior título da história do clube, a Série C 2005, e é engraçado que todas as vezes que vou à Belém e entro na casa de algum remista, vejo o pôster do time campeão e eu estou nele ao lado do André Barata e do Marquinho Belém. Graças a Deus pude ajudar o clube nessa conquista e logo no ano do centenário do Remo, o que tornou a conquista ainda mais maravilhosa. Nesse ano de 2005 foi uma Série C muito difícil com muitos times (63 no total) e de todos os lugares do Brasil, acho que foi a mais difícil Série C que já teve. Deixei muitos amigos no Remo e até hoje nos falamos, temos até um grupo no "whatsapp". Foi muito gratificante defender o Remo e tenho muito orgulho disso.

8 - F.P.: Deixe seu recado para sua família que está aqui no Brasil.

B.G.: Queria agradecer a oportunidade dessa entrevista, pois muitas vezes acabo ficando esquecido por estar tão distante. Queria falar também para os meus pais, Jacirema e "Canhoto", que o filho deles está bem, se esforçando e não está para brincar aqui. Também tenho um filho aí em Belém, Bruno Gabriel, que sinto muitas saudades, mas ele sabe que estou aqui não porque eu quero e sim para dar o melhor para ele. Quero mandar um abraço também para a minha "vózinha", para os meus tios e primos.

                                                       Beto com a sua família na Indonésia
                                                              (Foto: Arquivo pessoal)



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